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PSOE + PSP vs PS – O Socialismo de Azedo Gneco ao presente

16/03/2012

A propósito de um artigo na Revista do Expresso (de 10-3-2012), sobre a nova Ministra da Presidência, Soraya Sáenz de Santamaría, uma pequena mas bela mulher não conservadora, fui despertado, curiosamente, para rever as raízes fundacionais do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e fazer alguma análise comparada com o “socialismo” em Portugal. Às vezes acontecem coisas assim…
Neste contexto, e qual engenheiro de pontes, comecei por verificar as “fundações” do PSOE.

Capítulo I – O Partido Socialista Operário Espanhol

Para não remanescerem grandes dúvidas, prefiro recorrer à pura e crua citação dos factos:
«O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE; espanhol: Partido Socialista Obrero Español) é um partido político da Espanha, fundado em 1879. (…)
O PSOE foi fundado com o propósito de representar os interesses das novas classes trabalhadoras, nascidas da Revolução Industrial. Mudou a sua base teórica desde a sua fundação, adaptando-se às circunstâncias históricas do contexto europeu. Em 1979, sob direcção do então secretário-geral Felipe González, abandonou as teses marxistas.
Actualmente, o partido se enquadra ideologicamente entre os partidos social-democratas europeus.
PSOE foi fundado clandestinamente em Madrid, no dia 2 de Maio de 1879, a partir de um núcleo de intelectuais e operários (fundamentalmente tipógrafos), encabeçados por Pablo Iglesias. É portanto o segundo partido espanhol mais antigo, sendo superado apenas pelo Partido Carlista, fundado em 1833.»

Chegados aqui, algumas notas:
1.ª) Fundado em 1879;
2.ª) 100 anos depois da fundação sofreu, em 1979, e muito bem, por Felipe Gonzáles (um socialista que recebe o meu maior respeito e reconhecimento de verdadeiro socialista enquanto não socialista), um ajustamento ideológico para se adaptar à realidade do parlamentarismo monárquico democrático, ainda hoje vigorante.
3.ª) É o segundo partido espanhol mais antigo, sendo superado apenas pelo Partido Carlista, curiosamente este último uma variante espanhola (também sedimentada no povo) do Miguelismo português. Zeca Afonso, as “Sete Mulheres do Minho”, Maria da Fonte e El-Rei D. Miguel lembra-vos alguma coisa? Tudo lembra-me tão-somente isto: Povo!

Foi, pois, a sua ideologia sedimentada na social-democracia e no progressismo que permitiu ao PSOE alicerces que sustentassem, com fortaleza, a mutabilidade aos regimes (republicano e monárquico) sempre com uma legitimação puramente popular e com mais de um século de existência. Daí, quer se seja socialista, quer não (como é o meu caso), é de reconhecer ao PSOE uma coluna histórica que nos leva a respeitá-lo enquanto partido. O mesmo sucede, por exemplo, como o Partido Trabalhista inglês, de base sindical: «Partido político britânico formado a 27 de Fevereiro de 1900, como Comité de Representação do Trabalho (LRC – Labour Representation Commitee), e que recebeu o nome de Partido Trabalhista, em inglês Labour Party, depois das eleições gerais de 1906, quando 29 membros do Parlamento inglês se juntaram ao pequeno grupo independente de trabalhistas da Casa de Comuns. A sua grande base de apoio eram os sindicatos ingleses, sobretudo em períodos de crise como os que medeiam as duas grandes guerras.»

Capítulo II – O Partido Socialista Português

Vejamos agora as semelhanças do PSOE com o (que seria o) congénere português: o Partido Socialista Português (também conhecido por Partido dos Operários Socialistas de Portugal [POSP]).

Usando a mesma fórmula, passamos a citar factos da história:
Azedo Gneco foi um dos fundadores do Partido Socialista Português (PSP) e um dos seus primeiros dirigentes e, para não me acusarem de ser parcial, até pertenceu à Maçonaria.
Foi fundado em Portugal antes do PSOE, enquanto reflexo de progressismo da nossa Monarquia Constitucional…mais concretamente em 1875.
«O Partido Socialista Português (1875 – 1933) foi um partido político português fundado em 10 de Janeiro de 1875, na sequência do Congresso de Haia[1] da Associação Internacional dos Trabalhadores, o qual votara a criação de partidos socialistas nacionais. Da sua primeira comissão directiva fizeram parte José Fontana, Azedo Gneco, José Correia Nobre França e José Tedeschi.[2] Também em linha com o Congresso de Haia, o Partido assumia-se como marxista (depois federalista e proudhoniana), rejeitando as propostas de pendor anarquista da facção do movimento operário inspirada no bakuninismo.»
«Durante a década de 1870, Azedo Gneco manteve relações epistolares com Karl Marx e com Friederich Engels, proximidade que explica a sua adesão às teses do Congresso de Haia e o ter sido eleito o secretário-geral da secção portuguesa da Associação Internacional de Trabalhadores.»

Entretanto, no início do século XX manifesta-se a intransigência do Partido Republicano (PR) com o embrião do ideal socialista:
Gneco em 1901 «(…) defende a formação de uma aliança com os republicanos, contrariando a orientação maioritária dos outros grupos que se reclamavam socialistas. Essa aliança não foi feita, havendo sempre grande hostilidade por parte do Partido republicano Português em relação aos socialistas. Esse afastamento permitiu que, a partir de 1907, o Partido Socialista Português se tenha afastado da aliança com os republicanos, a ponto de receber o apoio discreto do rei D. Manuel II de Portugal às suas reclamações de melhoria das condições de trabalho do operariado.»
O republicanismo sectário, geneticamente revolucionário e destrutivo, personificado no PR, repudia o PSP. Azedo Gneco encontra acolhimento na maior amplitude e sintonia progressista do jovem Rei D. Manuel II, pela simples razão que o Rei desde logo percebeu o que eram problemas reais do povo, mormente a melhoria das condições de trabalho do operariado.
Após terem sido reveladas as cartas trocadas com D. Manuel II, constatou-se que «(…) os socialistas são muito criticados pelos republicanos e Azedo Gneco, próximo de alguns governantes e figuras destacadas da monarquia, é particularmente visado. Perante a degradação da sua imagem pública, opta por um afastamento da política entre 1908 e 1910, num sentimento de grande descrença nas ideias republicanas e socialistas.

A implantação da República Portuguesa, em 1910, reduz substancialmente a capacidade mobilizadora do Partido Socialista Português, esmagado pela vitória esmagadora do Partido republicano Português e pela sua tomada do aparelho do Estado. A partir de então o Partido Socialista Português entre em franco declínio, já que os trabalhadores aderiram em massa aos ideais do anarcossindicalismo, doutrina que conheceu os seus tempos áureos durante a Primeira República Portuguesa (1910-1926).»

«Daí para a frente ensaiam-se diversas outras tentativas de criação de organizações socialistas, sem, no entanto, se conseguirem afirmar no seio das correntes da oposição ao Estado Novo. Neste contexto, destacam-se: o Núcleo de Doutrinação e Acção Socialista (1942-1944), o Partido Socialista Independente (1944), a União Socialista (1944-1950), o Partido Trabalhista (1947) e a Frente Socialista (1950-1954). Entretanto, o P.S.P. (S.P.I.O) entrava também num esforço reorganizativo (1946). O advento destes partidos políticos, em grande medida consequência da conjuntura do pós-guerra, que animou toda a oposição ao Estado Novo, sofreria um sério refluxo, quando o regime se recompõe da vitória das democracias ocidentais.»

Em suma, quanto a este capítulo, o PSP era um partido de raiz profundamente popular (operariado), marcadamente português quanto à sua nascença, sendo de uma génese pura quanto à fonte ideológica (veja-se a proximidade de Gneco ao próprio Marx e a Engels) que resultou num conceptualismo ideológico consentâneo com o que defendia, de carácter moderado e não totalitarista (vejam-se as diferenças para o PR e a oposição ao anarquismo).

Capítulo III – O Partido Socialista (…que conhecemos)

O Partido Socialista (PS), o que conhecemos, foi fundado em 19 de Abril de 1973 na cidade alemã de Bad Münstereifel, por militantes da Acção Socialista Portuguesa. Fundado, portanto, no estrangeiro…ao contrário de um Partido Comunista Português (PCP) igualmente em apuros com a II república.

Fundado por Mário Soares, iniciado na mais “pura” maçonaria francesa e por Tito de Morais pertencente à loja José Estêvão, foi, além disso, fundado no estrangeiro, entre França e a Alemanha, sem raízes ao PSP e cujo fundador destacado, Mário Soares, foi um acérrimo comunista…conforme é sobejamente sabido.

Assim, na opinião do articulista, a maior coerência e estruturação ideológica no cenário socialista português pós Gneco, apenas se pode encontrar na pessoa de Manuel Serra que aderiu ao PS a 22 de Maio de 1974, depois de ter liderado o Movimento Socialista Popular. Foi um homem de grande determinação ideológica, o mesmo que nunca viria a ter espaço perante um Soares que controlava os interesses do partido, uma concepção própria (que veio a ser conhecida pela “gaveta”) e, sobretudo, tinha o Grande Oriente Lusitano de seu lado. Tínhamos um PS de base francesa (à semelhança das bases da I república), já remisturada pelos tempos…longe do purismo de Marx e Engels directamente injectado num partido de raiz portuguesa como o PSP de Gneco.
Apenas a salientar quanto a Serra (bem como a Guterres) a conflituante junção doutrinária do catolicismo com o marxismo, na sua vertente socialista. Meros “pormenores” dirão alguns… Para mim, nunca serão. Respeito, mas não entendo.

IV – Conclusões

Em tom de conclusão, a comparação entre o PSOE em Espanha com o PS em Portugal resume-se ao facto de serem apenas família…nada mais além disso. O resto são quase meras coincidências. Não são de estranhar, nem para o Dr. Soares, os resultados a que Portugal chegou comparativamente com os desenvolvidos pelo PSOE no país vizinho, uma vez que os pilares não são tão sólidos no primeiro como são no segundo …nem mesmo historicamente. Se adicionarmos a isso uma tardia aparição do PS no cenário português (embora haja uma historicidade paralela ao idealismo do partido português à maçonaria [à semelhança do PR no seu tempo] acumulando um elevado número de maçons da mesma matriz, sendo nesse domínio especifico, presuntivo herdeiro do PR conforme é indicado à mais alta instância socialista*) é natural que seja um partido com menos valências pensantes que um PSOE. Isso ficou claríssimo na colagem política da república portuguesa de Sócrates (inicialmente um jota e membro-fundador da Juventude Social Democrata) no Reino de Espanha de Zapatero. Um fazia e o outro acontecia… Em certa medida até percebo a tristeza do Dr. Soares quando manifestou a sua descolagem das orientações de José Sócrates. Ele, eu e os portugueses que querem ver (incluindo como é óbvio muitos socialistas) entendemos por quem fomos governados…algo muito longínquo do ideal de Gneco.
O cariz do PS (curiosamente como o do PR) é jacobino e parisiense, longe da génese operária do socialismo realmente lusitano de Azedo Gneco.

*Por fim fica a questão: Porque será que o Dr. Soares admira Afonso Costa…?

Fontes – Wikipedia e Infopédia.

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