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Focalização na honra dos números…

14/10/2011

Preocupa-me sobretudo a focalização do Dr. Pedro Passos Coelho em “Portugal ter de honrar os seus compromissos com quem lhe empresta o dinheiro”. Prezo o sentido da sua honra, a postura e o tom com que fala aos portugueses e aos agentes políticos. Mas então porquê a preocupação? Preocupa-me a obstinação de quem está pressionado. Preocupa-me que a sua lógica seja influenciada e estritamente orçamental…honrando os desígnios estrangeiros da Troika. O problema é que uma política de ataque (apenas à despesa e à receita pública), sem engenho de incremento económico, de incentivo à economia, submetidas às influências instantâneas de um já débil mercado mundial, indicia essa preocupação e são de um risco que nem ele sabe a dimensão. Acontece que, neste cenário, o resultado tem uma enorme margem de ser o pior possível!

O que temo são as eventuais influências/pressões externas (mais especificamente as franco-alemães) que o primeiro-ministro possa estar a sofrer, não considerando uma realidade interna já indesmentível. Ou seja, hoje é indesmentível que há que renegociar, depressa e em força, o acordo…sob pena de, sem mais forças, Portugal acabar na bancarrota e na quebra total de Soberania. Podemos estar a caminhar, literalmente, a ‘passos’ largos para o χάος (‘khaos’), para usar uma palavra grega.
Essa necessidade urgente de renegociar é dita por economistas e políticos experientes: Aníbal Cavaco Silva, Manuela Ferreira Leite, Henrique Medina Carreira, Marques Mendes e muitos outros. Fundamental é, antes de tudo, estender o prazo de empréstimo negociando os juros de acordo com uma lógica integrada na actual crise, não portuguesa, mas sim mundial. Já disse e volto a dizer: se temos um devedor em dificuldades em pagar o capital, aumentam-se os juros ou diminuem-se? Como é óbvio devem possibilitar-se as condições para ambos serem liquidados! No actual figurino só vejo aumentar. Nada mais errado! Se posso pagar menos em mais anos, e quiçá até poupar, porque pagar de forma asfixiada sem margem para qualquer “eventualidade” do já moribundo mercado mundial?

Ora é neste preciso aspecto que residem as maiores incertezas. Entendo a intranquila mas bem comportada atitude para com quem nos empresta o dinheiro, a Troika. Mas não podemos esquecer que a Troika foi um grupo de moços que vieram fazer o levantamento das nossas contas (não exaustivo – dado o tempo que cá estiveram e dada a urgência de financiamento), atentos apenas, vamos ser claros, à despesa e ao défice público. Só mais tarde vieram os seus superiores hierárquicos para assinar os documentos e falarem aos média, em traços gerais. Crescimento…não é o departamento deles. O departamento deles são dossiers, números (que esperemos que os tenham apurado bem [hipótese de responsabilidade deles aqui portanto]), contas …mas não pessoas. A Economia seja ela micro ou macro é mais do que isso! Ela é feita, acima de tudo, de pessoas e da respectiva actividade humana. Portugal tem 868 anos, são demasiados para serem decididos em meros meses por jovens “contabilistas” estrangeiros.

Ora, o modelo aplicado a Portugal pela Troika é o mesmo que foi usado na Grécia. Podemos dizer que o caso grego, por ser muito mais encapotado, e as regalias públicas e sociais gregas serem muito superiores, não configura o mesmo cenário, no “terreno”, que o português. Porém, é indesmentível que a fórmula é exactamente a mesma…para os dois.
Sem prejuízo dessa realidade, não se vêem soluções para estimular a Economia. Uma vez mais os principais visados são os trabalhadores da Administração Pública, muitos dos quais honestos e produtivos trabalhadores que são a sustentabilidade maior deste País. Na II república (a única que não faliu) o estatuto de funcionário público era respeitado, pois o recrutamento e o funcionamento, à data, eram rigorosos. Não haviam boys ou “afilhados”…também é verdade! Independentemente da época, continuo a acreditar que estes são agentes maiores na redistribuição dos valores de todos nós que, melhor ou pior, já vão sendo o sustento de muitos lares, com enumeros membros na família no desemprego. Mas também o sustento de muitos pequenos e médios empresários, adquirindo-lhes bens e serviços. Foca-se aqui, portanto, uma questão de sustento pura e dura.
A agir-se sobre o sector público deve-se actuar sim sobre o/a: Elevado número de chefias; Normalização dos vencimentos desmesurados dos gestores públicos (gerir empresas que quando têm dificuldades afluem imediatamente injecções do “tesouro” é sempre menos difícil que gerir na privada); Encerramento de enumeras empresas municipais; Terminus de acordos institucionais inócuos e de proveito nulo; Verificação e actuação sobre ajudas de custos disparatadas; Terminus de festas, “eventos”, merchandising e beberetes que custam milhões ao erário público e que dariam para pagar os dois subsídios que vão ser tirados a todos, etc, etc…
Mas esta reforma também deve premiar quem, no sector público, deu lucro, quem prosperou ou quem até não extrapolou os limites orçamentais impostos por ano, etc…

A matriz do actual sistema materializa-se na banca, mas também é ela a responsável maior pela a nossa crise. Além dos empréstimos que responsavelmente pagamos individual e particularmente para termos os nossos meios de vida (casa, carro, colégios dos filhos, etc), mesmo apesar disso, a banca ainda levou a grande fatia da injecção dos governos dos EUA e da Europa em 2008 …apenas por que assim teve de ser. De ressalvar que, à data, a nossa banca até não estava assim tão carenciada…mas foi-se na “onda”. Ou, invés, ter-se-á ido pelo simples e cego seguidismo aos EUA, ex-patrões do mundo? Quando José Sócrates deu o dito pelo não dito e avança para o pedido de empréstimo à Troika, foi a banca que o impôs, disso não tenham dúvidas! Será que toda esta crise instalada, para além da origem nas bolhas especulativas do sector imobiliário, também não assentará, grosso modo, numa espécie de ressarcimento de ex-governos pelo pagamento de campanhas eleitorais do partido X, Y ou Z, por intermédio de obras faraónicas e empréstimos bancários para cobrir aquelas?
Não me esqueço que a banca também financiou alguma da dívida pública, é verdade sim senhor. Mas isso não justifica o prejuízo real que nos foi também infligido pelo sector bancário ou banqueiro se preferirem. Aliás, sou da opinião que os 12 mil milhões destinados pelos nossos actuais financiadores para o (re)financiamento da banca portuguesa, em vez de serem injectados para recapitalização, deviam ser usados para o pagamento dessa mesma dívida antes contraída pelo sector público. Ou seja, o destinatário primeiro desse montante, o Governo da república, deveria abater a dívida que contraiu com a banca. O resto, ou seja os reajustamentos internos para reacender o sector, deviam ser de exclusiva iniciativa interna da banca por intermédio de fusões ou outras medidas similares.

Entendo que a nossa maior esperança de momento reside, e nem acredito que tenho dito isto nos últimos tempos, em Durão Barroso. Provavelmente em fim de ciclo e sem nada a perder, finalmente fala com desprendimento. As ideias relativamente aos Eurobonds e às medidas quanto a uma capitalização normalizada e balizada da banca são, na realidade, as hipóteses de um caminho melhor …ao menos conjunturalmente.

Em suma, e não sendo de esquerda nem tão pouco votando nela por ideologia, o Capitalismo, como o conhecemos, está morto (tal como o Comunismo)! É hora de criar um novo sistema! Vivemos uma crise de paradigma ou, por outras palavras, uma crise sistémica de escala planetária. A raiz maçónica, padronizada no verso da nota de um dólar, e enraizada especialmente nas repúblicas (seus habitats naturais) deve ser substituída…e depressa!
Por fim deixo a questão, a qual se impõe que seja respondida aos portugueses com a mais absoluta clareza: até quando vai perdurar a austeridade, para todos possamos fazer contas à nossa vida? Espero, com toda a franqueza, que os sacrifícios não sejam em vão!

Post Scriptum: Dada a enorme asfixia que, a priori, subsistirá nos próximos dois anos, as quais sejam, conforme afirmou o primeiro-ministro, sejam excepcionais, então, que também a título excepcional sou do entendimento que o IMI devia ser pura e simplesmente suspenso parcial ou totalmente nos mesmos anos, como medidas preventivas da sustentabilidade da Economia.

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