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O Patriotismo | A Democracia | Os “Heróis”

28/10/2010

No Reino da Noruega, país que em 2009, segundo o respectivo relatório anual das Nações Unidas, foi qualificado como o mais desenvolvido do mundo em Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), teve, em 1920, por intermédio de um filho seu, o escritor Knut Hamsun, um “nobél” da Literatura. Nunca deixando de sublinhar as antigas rivalidades entre os reinos da Suécia e da Noruega, a verdade é que o autor de “Fome”, obra considerada por muitos uma obra-prima e «romance fundador da literatura moderna», recebe a célebre distinção da Real Academia Sueca.

Porém, este autor no pós-guerra foi julgado por traição à Pátria, pela sua ligação ao nazismo, sendo que desse facto resultou a consequência de ainda hoje não existir, no Reino da Noruega, nenhuma rua com o seu nome. Face a uma decisão de Tribunal, provada e transitada em julgado, parece-me justo e realista a sanção infligida sobre o escritor, por quebra com princípios elementares de um Estado de Direito, o do Patriotismo e o da Democracia. Ajuizou bem o Tribunal, procedeu bem a Nação não reconhecendo, até hoje, Hamsun como herói nacional, não obstante o seu génio e excepcionalidade no mundo da literatura moderna (visto que foi além do ser apenas mais um “Nobél”).

Sem prejuízo do exposto, no nosso modernaço Portugal republicano, também tivemos um “Nobél” da literatura. Nada que fosse da dimensão de Hamsun ou trouxesse a sua inovação (à parte de uma técnica de escrita que gerou polémica, visto que para uns escrevia com erros e para outros era “inovação e génio”). Mas os dois tinham algo em comum. Ambos simpatizavam com regimes, como direi…pouquíssimo democráticos. Um pela ex e extinta Alemanha Nazi, o outro pelo regime cubano, ainda vigente, de Fidel Castro. Ambos, ao seu modo, e pelas formas sobejamente conhecidas desdenharam as suas pátrias. Consequências?! Num caso já foi supra exposto! No outro, o do “Nobél” Saramago, as “consequências” foram: alvíssaras, prémios, honras, idolatria, e, sobretudo, uma recepção aquando do seu enterro, no país que deixou e desdenhou, no contexto da habitual tese do iberismo, inserida na sólida génese republicana, com honras de Estado…só tendo faltado a este o presidente da república, que muitos, ainda assim, criticaram, mas que não deixou de enviar um alto dignitário e representante ao “evento nacional”.

Finalizando, neste País plantado à beira Atlântico, já começo a não ficar chocado, o que já de si é gravíssimo, para uma consciência colectiva de cidadania que se quer sã, quando assisto a fenómenos como o de Aquilino Ribeiro e, neste ano, de Saramago.

Felizmente, para todos nós, há quem não se resigne e exponha a verdade nua e crua, e sem rodeios, e talvez por isso já começa a ser alvo de reconhecimentos, que poucos anos atrás, eram impensáveis.

Fotos – Direitos reservados aos seus legítimos autores.

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