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Resistência Monárquica à «Salazarquia»: Uma Carta de Fernando Pessoa.

08/10/2010
by
Fernando António Nogueira Pessoa

 

O maior erro cometido pelos monárquicos depois de 1910, foi o de terem acreditado que algum dos Ditadores republicanos (Sidónio em 1917; Salazar, depois de 1933)  iria restaurar a Monarquia. Felizmente, houve alguns, como Pessoa, que nunca se deixaram levar pelos «cantos de sereia», da «Salazarquia.»

Eis a missiva que tinha preparado enviar, ao presidente da república, em 1935: 

«[Ao Presidente da República]

Com uma de duas qualidades – de duas só – se afirma um homem chefe de um povo, comanda um homem a massa indistinta e informe da nação. São elas o poder oratório e o prestígio militar – a eloquência de um António José de Almeida, a bravura de um Sidónio Pais.

Às qualidades de inteligência, por grande que seja, de trabalho, por intenso que possa ser, a essas e a outras, de menor relevo público, como a honestidade, a virtude, o patriotismo, encolhe o povo os ombros, sem sequer pensar em respeitá-las; deixa-as na sombra a que naturalmente pertencem.

Convém não esquecer, Senhor Presidente, que uma nação é um teatro e um governo um palco: ninguém comanda a alma de um povo se não tiver nascido, ou se não se fizer, actor. É essa a razão do prestígio orgânico da monarquia: o rei nasce no palco e é educado, desde a infância, para estar e representar nele. Pode a eloquência ser oca, a bravura postiça: o caso é que uma se ouça e a outra se veja. 

Quer isto dizer, Senhor Presidente, que uma nação haja sempre de ser governada por chefes acentuadamente tais, que não haja período em que possam estar no poder os inteligentes sem aura e os patriotas sem prestígio? Não é o que quer dizer. O que porém quer dizer é que esse prestígio de chefe, desnecessário muitas vezes num governo de época normal, é indispensável num governo de época anormal, imprescindível num governo de autoridade. O que porém quer dizer é que o Prof. Salazar, não tendo tal prestígio, nem maneira de o ter, se deixou investir da aparência dele. É a sua túnica de Nessus.

Ninguém pode legitimamente culpar o actual Presidente do Conselho de não ter qualidades que não tem; pode legitimamente fazer-se de, não tendo tais qualidades, pretender tê-las e ter-se colocado em situação de, não podendo tê-las, ser todavia necessário que as tenha.

Culpa-se o Prof. Salazar disto: de ser incompetente para o cargo que assumiu.

Um homem que, tendo que presidir a uma distribuição de prémios literários, abre a sessão com um discurso em que enxovalha todos os escritores portugueses – muitos deles seus superiores intelectuais – com a fútil imposição de «directrizes» que ninguém lhe pediu nem pediria, e que, pedidas que fossem, ninguém poderia aceitar por não compreender quais sejam – esse homem, que assim, com uma inabilidade de aldeão letrado, de um só golpe afastou de si o resto da inteligência portuguesa que ainda o olhava com uma benevolência, já um pouco impaciente, e uma tolerância, já vagamente desdenhosa, não tem sequer o prestígio limitado que lhe permita governar uma república aristocrática, a aceitação de uma minoria que, ainda que praticamente inútil, fosse teoricamente inteligente. 

Destinado assim naturalmente por Deus para executor de ideias de outrem, visto que as não tem próprias, de secretário de prestígio alheio, porque o não pode conquistar seu, o Prof. Salazar quis alçar-se, ou deixou que o quisessem alçar, a um pedestal onde mal se acomoda, a um trono onde não sabe como sentar-se. Não conseguiram os titãs, e eram titãs, escalar o Olimpo; como o conseguirão os anões, condenados, para que possam parecer grandes, ao desequilíbrio constante das andas que lhes ataram às pernas? 

Isto não é ser mestre, nem ser chefe é: é ser exemplo. Mas igual exemplo nos dão e sempre deram as formigas e as abelhas – cujo Estado Velho está absolutamente bem organizado, e em princípios antiliberais a que ninguém desobedece –, sem que seja preciso promover a Abelha Rainha à posição, presentemente mais que régia, da Presidência do Conselho. Realmente é um Estado Novo, porque este estado de coisas nunca antes se viu. 

Chegámos a isto, Senhor Presidente: passou a época da desordem e da má administração; temos boa administração e ordem. E não há nenhum de nós que não tenha saudades da desordem e da má administração. Não sabíamos que a ordem nas ruas, que as estradas, as pontes e as esquadras tinham que ser compradas por tão alto preço – a da venda a retalho da alma portuguesa.

Tem todas as qualidades periféricas de chefe. Falta-lhe a principal – que é ser chefe.»

Fernando Pessoa, «Contra Salazar», selecção, introdução e notas de António Apolinário Lourenço, Angelus Novus Editora, Coimbra, 2008, pp. 137-140.

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