Skip to content

Pergunto eu: «Será este o triste desfecho de 100 anos de República?»

21/04/2010
by

«Com PEC ou sem PEC, com Sócrates ou sem Sócrates, o que se passar não vai ser decidido pelos portugueses.

A guerra de palavras tem sido intensa. De um lado, os professores de Economia – Roubini, Stiglitz, ex–funcionários do FMI. Do outro os responsáveis institucionais – Comissão Europeia, Banco Central Europeu, Governo. Os primeiros traçam uma profecia terrível: Portugal será a próxima vítima, e poderá mesmo ter de abandonar o euro. Os segundos prometem segurança no futuro: nem Portugal é a Grécia, nem vai obviamente sair do euro.

Este “euro-match” vai continuar mais algum tempo. Como é evidente, não são só os nervos da Grécia ou de Portugal que estão a ser testados. Mais do que tudo, especuladores e académicos testam os nervos à Alemanha. Até quando irá a Alemanha dar o aval aos seus pobres, e por vezes indisciplinados, vizinhos do Sul? Até quando irá Merkel aguentar a impopularidade das “ajudas” em casa? É esse o verdadeiro teste. Para a Europa, e para o euro, o que se passa em Portugal ou na Grécia conta pouco. São cinco por cento da Europa, coisa sem grande valor. Mas, a determinação alemã, essa sim, conta e muito.

Aliás, esta fractura dentro do euro há muito que vinha ameaçando expor-se. A moeda única foi feita para alemães, holandeses e checos, que levaram à boleia os franceses. Mas não foi feita para países como Itália, Grécia, Espanha ou Portugal, economias habituadas às desvalorizações permanentes das suas moedas. Sem um poder central europeu, mas com regras tão violentas como as do euro, era inevitável que, passada a euforia financeira inicial, a economia real desses países fosse confrontada com esta dura provação. Em dez anos, Portugal, tal como a Itália ou a Grécia, quase não cresceu e a produtividade não subiu. O que se passou foi apenas uma ilusão financeira de baixas taxas de juro, que lançou todos – pessoas, empresas e Estado – numa espiral de dívida colossal. Agora, estamos de mãos e pés atados.

É pois curioso que as pessoas usem a expressão “Portugal poderá sair do euro”. Dá a ideia, falsa, de que a nossa vontade ainda conta. Infelizmente, não conta nada. Com PEC ou sem PEC, com Sócrates ou sem Sócrates, o que se passar não vai ser decidido pelos portugueses, mas sim pelos alemães. Se a Alemanha quiser continuamos no euro. Se a Alemanha não quiser teremos de sair. Era bom que as pessoas tivessem a noção de que com dez milhões de habitantes somos totalmente irrelevantes na Europa, a não ser talvez como mau exemplo. O futuro já não está nas nossas mãos, essa é que é essa.», in Domingos Amaral, «Correio da Manhã».

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: